BERLIM: PRIMEIRO DIA

O primeiro compromisso do dia foi o Free Walking Tour, um passeio a pé pelos principais pontos turísticos da cidade com um guia em um grupo de aproximadamente 20 pessoas. Basta fazer a inscrição pelo site (clique aqui) e comparecer no dia e horário agendado. Ao final do passeio cada participante paga o valor que acha que valeu. É uma ótima forma de ter uma visão geral sobre a cidade e ainda conhecer lugares e curiosidades que somente um guia nos contaria.

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O ponto de encontro era no Starbucks às 11h e como não tomamos café no hotel, resolvemos comer alguma coisa por lá. O Starbucks fica na Pariser Platz, praça na região central da cidade que abriga edifícios de embaixadas e do parlamento.

O tour começou às 11h e o nosso guia foi o inglês Mark Curtis (de camisa roxa na foto abaixo). Para quem pretende fazer este tour e gosta de surpresas, recomendo pular para o fim do post, pois vou contar o que vimos e o que o guia nos disse. *Contém spoilers*

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O primeiro ponto turístico que nosso guia nos mostrou foi o Portão de Brandemburgo, localizado na Pariser Platz e um dos monumentos mais importantes da Alemanha.

O Portão de Brandemburgo, inaugurado no ano de 1791, é o segundo portão ali instalado. O primeiro foi erguido no ano de 1658 e demolido em 1788. A função do atual portão era fornecer acesso direto ao rei Frederico Guilherme II a partir do palácio real ao Tiergarten, o segundo maior parque de Berlim. Através da passagem central, apenas o rei e seus convidados tinham o acesso liberado.

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No topo do portão há uma escultura em bronze composta por quatro cavalos lado a lado conduzindo uma carruagem (quadriga) onde está a Deusa da paz Irene. A escultura foi instalada no ano de 1973 mas no ano de 1806, com a chegada das tropas francesas na cidade, foi enviada para a França a pedido de Napoleão Bonaparte.

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Em abril de 1814 a escultura foi recuperada e trazida de volta à capital alemã. À pedido do então Rei Frederico Guilherme III, acrescentaram uma cruz de ferro e uma águia prussiana à escultura de bronze e esta passou a ser dedicada à Deusa Vitória.

Pouco antes do fim da II Guerra Mundial, o portão e a escultura em bronze foram danificados e no ano de 1950 o que restou da quadriga foi destruído. Em 1958 foi reconstruída e instalada novamente sem a águia e a cruz, mas desta vez sua posição ficou invertida. Somente em 1991 é que estes elementos foram reincorporados à quadriga.

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É também na Pariser Platz que está o Hotel Adlon: hotel de luxo construído em 1907 que foi completamente destruído na II Guerra Mundial e foi reconstruído e inaugurado em 1984.

É lá que as autoridades estrangeiras se hospedam e também foi neste hotel que Michael Jackson apresentou, de forma nada convencional, seu filho Prince Michael II, com apenas 9 meses de idade na época (neste vídeo dá para rever o acontecido).

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Seguimos caminhando e em poucos minutos chegamos ao Memorial do Holocausto, projetado pelo arquiteto norte-americano Peter Eisenman e construído entre os anos de 2003 e 2004.

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O memorial consiste em 2.711 blocos de concreto espalhados em uma área de 19 mil m2 em um terreno ondulado. Não há placa indicando seu nome, nem mesmo há um local de entrada e saída: o visitante entra e sai por onde quiser. Peter Eisenman não descreveu a mensagem que quis passar através do projeto, pois cada visitante deve ter sua própria percepção e interpretação do monumento.

Caminhar entre os milhares de blocos de concreto causa uma sensação de estranhamento, solidão, surpresa, medo. À medida que avançamos pelo terreno inclinado, os blocos parecem crescer e nos engolir. O guia nos perguntou o que sentimos e interpretamos deste monumento e as repostas foram variadas: uns disseram que o local é a representação de um cemitério de judeus, outros disseram que as diferentes alturas representam a forma lenta e brutal como o holocauto aos judeus aconteceu, outros disseram que caminhar entre os blocos seria a maneira como os judeus eram transportados até os campos de concentração. A verdade é que não existe certo ou errado e a genialidade do arquiteto neste projeto se dá exatamente por isso: é um local de reflexão e garante uma experiência sensorial e única para cada visitante.

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Este é, provavelmente, o monumento mais polêmico de Berlim, quiçá da Alemanha: a obra teve um altíssimo custo e consumiu nada menos do que €27 milhões, a contratação da empresa Degussa para fornecer um produto anti pichações a ser aplicado nos blocos de concreto e que foi também a fornecedora do gás utilizado nas câmaras de gás dos campos de concentração e o fato de o Memorial ser, a princípio, dedicado somente às vítimas judias e não fazer menção aos demais perseguidos pelos nazistas (homossexuais, comunistas, presos políticos, ciganos – mais de 500mil deles foram assassinados, Testemunhas de Jeová).

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Foi publicada uma matéria no site do El País em dezembro de 2013 (leia aqui) relatando uma grave infiltração nos blocos de concreto e posteriores fissuras em mais 2/3 dos mesmos causadas pelo congelamento da água na época do inverno.

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Após a parada no monumento, seguimos a pé e paramos em um estacionamento de um condomínio residencial. Todos os participantes ficaram se olhando sem entender o motivo da parada, afinal o que tinha de turístico ali? E foi exatamente o que o guia nos perguntou: ‘O que vocês imaginam que estamos fazendo aqui?”. Ninguém arriscou uma resposta, talvez o mais lógico seria uma parada para descansar, mas não fazia sentido porque havia pouco tempo que estávamos caminhando.

E aí o guia nos disse que estávamos no local onde foi construído a 5m de profundidade o bunker (abrigo subterrâneo) para onde Hitler se mudou poucos meses antes do término da II Guerra e também o local onde ele e a então esposa Eva Braum se suicidaram no ano de 1945, um dia após se casarem. O bunker foi destruído pelas tropas soviéticas após o término da guerra, para evitar que o local virasse um ponto de encontro de culto ao nazismo. Também por este motivo foi construído o condomínio de edifícios residenciais e estacionamento de veículos dos moradores no local:

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A poucos metros dali está o edifício que abriga o atual Ministério Federal das Finanças da Alemanha. Até aí nada demais, a não ser pelo fato de que pertencia aos nazistas e era a sede do Ministério da Aviação do Reich. É um dos poucos edifícios que sobreviveram aos bombardeios aéreos e exatamente por isto o único local que poderia abrigar imediatamente a Casa dos Ministérios da República Democrática Alemã (RDA):

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Após uma pausa de meia hora em uma lanchonete, seguimos a pé e encontramos as marcas do antigo Muro de Berlim. Sobrou pouco do que era o muro e as marcas desta construção foram mantidas para que este período da história alemã e do mundo não seja esquecido:

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O muro que dividiu a capital alemã em uma porção capitalista (Berlim Ocidental) e a outra socialista (Berlim Oriental) foi construído na madrugada de 13 de agosto de 1961 por 34 mil trabalhadores, sob ordem do regime da extinta República Democrática Alemã.

E não era um muro qualquer: eram 43km de fronteira fechada entre as duas partes da cidade e outros 112km que cercavam a parte externa de Berlim Ocidental, 302 torres, 20 bunkers, 259 postos para cães de guarda e 127km de cercas com detectores para evitar por completo o acesso ao lado ocidental de Berlim.

Em toda a extensão do Muro de Berlim havia postos de fronteira e o mais conhecido deles é o Checkpoint Charlie, que atualmente é atração turística na capital alemã. Este posto servia de passagem do lado ocidental para o lado oriental para estrangeiros e membros das Forças Aliadas, os quais não tinha permissão para utilizar outra passagem que fosse destinada a estrangeiros.  Na porção ocidental há vários ícones da cultura capitalista, entre eles uma unidade do McDonald’s.

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Seguimos caminhando e chegamos à Gendarmenmarkt, praça localizada no centro histórico de Berlim. É lá que está o edifício da sede da Ópera Estatal de Berlim e foi onde fizemos uma pequena pausa:

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À esquerda do edifício da Ópera está a Catedral Francesa, construída no ano de 1705:

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E ao lado direito da sede da Ópera Estatal de Berlim está a Catedral Alemã, construída no ano de 1708. Se você reparar na foto abaixo e na foto acima irá perceber que as catedrais francesa e alemã são praticamente idênticas:

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De lá seguimos caminhando até a Bebelplatz, nossa última parada. Em 1933 esta praça foi palco da queima de 20 mil livros pelos nazistas e seus simpatizantes por considerarem as ideias contidas nos exemplares contrárias à ideologista nazista. Os autores de alguns destes livros eram Sigmund Freud, Karl Marx e Rosa Luxemburg.

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Na praça também está localizado o prédio da escola de Direito da Universidade Humboldt:

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E em frente ao edifício da foto acima há uma placa de vidro que é uma obra de arte do israelense Micha Ullman chamada “Biblioteca”. A foto que tirei não está boa (o vidro estava bem sujo neste dia), mas o que se vê através dele são prateleiras vazias de uma biblioteca subterrânea, uma alusão aos livros que foram queimados pelos nazistas:

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O passeio acabou por volta das 13:40h e valeu muito a pena, recomendo demais! De lá eu e o Du seguimos andando pelas ruas da cidade para conhecer a parte que não vimos no tour. De longe já avistamos a cúpula da Catedral de Berlim (Berliner Dom) e fomos vê-la de perto:

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Esta catedral protestante foi construída entre os anos de 1894 e 1905 e é possível visitar seu interior e ainda subir 270 degraus até seu topo, de onde se tem uma bela visão da cidade. A visita é paga e como estávamos famintos, preferimos admirá-la somente pelo lado de fora. A riqueza de detalhes impressiona os olhos:

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A catedral está localizada na Ilha dos Museus, às margens do Rio Spree:

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Seguimos andando e resolvemos parar em uma galeria com vários restaurantes e bares para almoçar. Não me lembro o nome do lugar, mas é bem próximo da Catedral e é bem agradável para fazer uma pausa e comer alguma coisa:

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Pedimos salsicha com salada de batatas e uma cerveja para acompanhar. Estávamos famintos e devoramos tudo!

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Após pausa para o almoço, seguimos caminhando sem rumo e paramos na Igreja de Santa Maria (Marienkirche), uma das mais antigas da cidade. Na foto abaixo está a igreja e ao fundo a Torre de Televisão de Berlim, com 368m de altura:

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Próximo à Igreja está a Fonte Netuno (Neptunbrunnen), uma das mais antigas da capital alemã:

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E em frente à fonte está o prédio da Prefeitura (Rotes Rathaus), na foto abaixo. Os tubos coloridos em frente à Prefeitura estão espalhados por toda a cidade e nos deixaram intrigados. Descobrimos que Berlim está construída sobre um pântano e estes tubos servem para transportar a água drenada. E eles possuem desvios e curvas para evitar que a água congele durante o inverno:

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E seguimos andando… Os semáforos da região leste da cidade, que pertencia à Berlim Oriental antes da reunificação, ainda possuem os bonequinhos de chapéu para indicar aos pedestres “Pare” ou “Siga”:

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Este pictograma, conhecido como Ampelmann, foi criado em 1961 pelo psicólogo Karl Peglau e aplicado nos semáforos no ano de 1969. Após a reunificação da Alemanha o famoso bonequinho quase foi extinto mas a maioria da população foi contra. Existe até uma loja que comercializa vários itens com o Ampelmann estampado

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Seguimos para o Reichstag, edifício do Parlamento Alemão, construído em 1894. O edifício atual não é exatamente o mesmo do século XIX: em 1933 um misterioso incêndio destruiu a sala do plenário e a cúpula do Reichstag. A partir do ano de 1961 iniciou-se a reforma da edificação e após 10 anos foi finalizada.

DSC_0137Entre os anos de 1995 e 1999 o Reichstag passou por outra reforma, desta vez orquestrada pelo arquiteto inglês Sir Norman Foster. Além da reforma, foi incorporada uma cúpula de vidro sobre o plenário de 23,5m de altura e 40m de diâmetro que pesa 1.200 toneladas e foram utilizados 700 toneladas de aço inox e 3.000m2 de vidro.

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A cúpula é aberta a visitas gratuitas que devem ser agendadas com bastante antecedência no site do Parlamento Alemão (clique aqui). Fiz nossas reservas quando ainda faltava mais de 01 mês para a viagem (sim, sou freak com organização!). É importante levar o papel da reserva impresso no dia da visita (eles enviam por e-mail) e documento com foto para identificação de cada visitante (levamos o passaporte). Chegamos um pouco antes do horário marcado e nossa entrada foi liberada. E a parte boa é que não há hora para sair de lá, cada um decide o tempo que quer gastar lá dentro. É necessário passar pelo Raio-X, igual no aeroporto. Pegamos o áudio guia na recepção na opção Português e gratuito e seguimos para o elevador.

Em poucos minutos chegamos ao terraço onde está instalada a cúpula:

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E lá de cima é possível avistar praticamente toda a cidade de Berlim:

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Dentro da cúpula há uma rampa que leva até o topo, onde é possível sentar em bancos e apreciar com calma a cidade e o céu, já que o topo da cúpula é descoberto:

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Enquanto caminhávamos o áudio guia ia fornecendo informações sobre o edifício e passagens da história alemã.

Na parte central do interior da cúpula foi instalado um cone invertido revestido em aletas espelhadas inclinadas para que a luz do horizonte seja refletida no interior da edificação e, desta forma, ilumina de forma natural a sala do plenário. E é através do interior deste cone que passa o ar do interior do edifício, atuando como um importante elemento do sistema de ventilação natural através do Efeito Chaminé. Na foto abaixo dá para visualizar a cobertura de vidro da sala do plenário (na base do cone invertido):

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A sensação que tive quando comecei a subir a rampa interna é de que estava em algum filme de ficção científica, tipo Minority Report, de tão contemporânea e tecnológica que é o interior da cúpula. E no terraço temos o contraste com as torres mais antigas do edifício:

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Vale muito a pena fazer esta visita, é uma experiência única e ainda por cima gratuita!

Saímos de lá e seguimos andando enquanto ainda tínhamos pique! E de repente aparece uma obra de arte na calçada, surpresas típicas da cidade:

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Chegamos sem planejar até o Topographie des Terrors (Topografia do Terror), um museu/memorial a céu aberto com um acervo muito completo sobre as atrocidades cometidas durante o regime nazista. A entrada também é gratuita e é possível passar horas por lá.

DSC_0177É neste local que ficava a sede da Polícia Secreta (Gestapo) e onde foram planejados os crimes cometidos pelos nazistas.

DSC_0167Este museu está ao lado de um trecho ainda preservado do Muro de Berlim:

DSC_0180Quando saímos de lá o sol estava começando a se pôr (já eram quase 20h) e ainda passamos no Chekpoint Charlie e Gendarmenmarkt. A luz do sol refletindo nas edificações estava simplesmente deslumbrante:

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Por fim já estávamos acabados de tanto andar o dia inteiro. Compramos umas cervejas e snacks em uma loja de conveniência e fomos direto pro hotel.

O dia foi bem intenso mas aproveitamos muito, deu para ter uma noção do que é Berlim, de como é uma cidade cosmopolita, amistosa, receptiva e que tem muita história para nos contar. Ver de perto uma cidade que teve 90% de suas edificações e estrutura destruídas durante a guerra e que atualmente está recuperada e melhor do que muita cidade mais antiga, me deixou admirada pela capacidade e determinação do povo alemão. E fiquei ainda mais animada para conhecê-la melhor!

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